quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Águas de Lastro 2012

Ana Johnson

e já nem o sol e nem os sinos dobram,

apenas porque não ouço

[ e nem distingo]

as destras dúvidas

que me pairam, qual fumaça,

na janela insolente

sobre o rio




que me tem a bombordo

de onde me leio

cuidadosamente

e me zarpo para mais além,

para onde ensaio meditações impossíveis.

sábado, 17 de agosto de 2013

Águas de Lastro o fim da minha rua

nos lugares da paz que recordo,
quase nada:
encontros em desencontro,
instantes, rastos e restos,
pós de vida, vultos vagos.
quase nada.
existe uma gotinha que acontece na descida,
lugar de sorte e morte lenta, vida.
estrela-mar, tudo.
canto-puro,
pedras que dançam
no rio em flor que a fina gota alimentou.
[ sim, houve uma gota. ligeira. água].
deu azos a acasos vãos,
e, até, a gritos da rama,
que dormia, rasa, em estreito muro...
queria acordar-se um encore de vida, que não existia,
tatuada nos campos feitos de corpos-quadro,
[ que nunca se presumem,
assumiam]...
ali, olhando a galeria, me ponho assim,
saudade escrita no fim
[ que é fado triste,
em que apago as pegadas do que me existe
e corre e assiste]
sempre: meio-tudo meio-nada,
tanto em riste, quanto triste
que, de cheio, o copo se faz pranto e verte a fé
[ que foge ao terço como a conta de prata ao nada].
fé e crença amortalhadas num ápice evocado .
e o tempo conspirado existe e expira,
nas asas sem dúvidas da borboleta, no chão, [ que passo e piso],
no encanto de imagens pensadas,
meticuloso berço de um deserto,
[outono], onde as estrelas, que assim se deixam ver,
chamam longas noites e a alma reza, lenta,
devagar,
dobra-se em ventos de areias,
preces gastas em todos os vazios livres, mais além,
onde guardo o que não vivi, síntese do que foi,
[ porque o amanhã me pode não acontecer...],

é então que regressam os sonhos ao lugar sonhado,
e o pensamento foge da verdade tua, ó tempo,

que longe estás do céu, do fim da minha rua.

tempo

by - Ana Johnson
O tempo é um intrincado conluio entre a chegada e a partida. Que o digam como queiram. Cantem-no rio e mar, e oceano até, porque é num pequeno lago – quase charco - que o vejo, transformado.

O tempo é carcereiro. Algoz que nos prende, carrasco que nos arranca vida e memória. E podia dizer coisas soberbas sobre o tempo. Podia. Mas, hoje, não sinto que haja nada de transcendente para partilhar sobre essa - sua - voraz passagem.
No tempo, vejo a minha mãe,  que me olha como se os meses que lhe passei dentro, abrigada, nunca tivessem existido. E que, a tempos, me conhece ou não e não reconhece as horas e  nem os anos que passaram por ela, por mim, por nós. O tempo é traiçoeiro, caminha-lhe ao lado, atrás e à frente. caminha-lhe pelos mesmos sítios de sempre ( e sempre) como se fosse a primeira vez.
E os meus filhos olham-me e vejo neles um medo de que o tempo se lembre também de mim. O tempo não passa de jogo sádico que nos acontece.